COMIDA NUA E CRUA

 

Flávio Dieguez

 

Publicado em: http://super.abril.com.br/alimentacao/comida-nua-crua-441682.shtml

 

 

Os hippies, no auge dos anos 60 e 70, desprezavam o relógio, tinham pouco apreço pelo chuveiro e preferiam uma barraca no mato a uma cama na cidade. Mas sempre levavam uma panela em suas mochilas. Afinal, era com ela que preparavam seu prato típico: macarrão com sardinha. Nem eles, portanto, com toda a sua rebeldia e gosto pela derrubada de padrões, conceberam insurreição tão original contra os hábitos domésticos quanto o que prega o crudicismo: a deposição do fogão.

O crudicismo é uma dieta que proclama que as refeições de pessoas saudáveis devem se compor unicamente de plantas tal como estão na natureza – cruas. Cozinhá-las, assá-las, fritá-las, nem pensar. Carne – mesmo crua –, ovos e laticínios, também são proibidos: o crudicismo os considera venenos disfarçados.

“Quem quer que tenha começado a cozinhar, há 40 000 anos, não percebeu que nós não fomos feitos para comer comida preparada”, diz Ed Douglas, diretor do American Living Foods Institute, baseado em Glendale, Califórnia, um crudicista com mais de 20 anos de estrada. “Nosso desenho, como o dos outros animais, prevê a ingestão de alimentos em sua forma natural.” Eis a idéia que está na base do crudicismo: o corpo precisaria de enzimas presentes nos alimentos crus para auxiliar a digestão desses próprios alimentos. Submetidas ao calor, essas enzimas deixariam de operar e o organismo teria que produzir mais das suas próprias enzimas, usando para tanto uma energia que poderia ser utilizada para outros fins.

Muitos especialistas duvidam da teoria crudicista. Basicamente porque está provado que a digestão depende muito mais das enzimas produzidas pelo organismo do que daquelas presentes nos alimentos. Mas também porque há casos em que cozinhar o alimento pode beneficiá-lo. Pesquisadores da Rutgers University, em Nova Jersey, Estados Unidos, publicaram recentemente um estudo que mostra que a quantidade de ferro que pode ser absorvida pelo organismo humano cresce de 6,7% no repolho cru para 27% no repolho cozido. No caso dos brócolis, o ganho é ainda maior: de 6% para 30%. Outra importante crítica ao crudicismo parte do fato de que levar a comida ao fogo não deixa de ser um gesto profilático. Afinal, há dezenas de microorganismos presentes nos vegetais crus, como a salmonela e a ciclospora, que são geralmente eliminados no cozimento.

A dieta crudicista também pode implicar problemas por ser exclusivamente vegetal. “Os vegetais estão longe de ser alimentos ideais”, diz a médica nutróloga Vânia Assaly, da Associação Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. “Só na carne o organismo humano encontra diversas matérias-primas de que precisa para fabricar compostos muito importantes ao seu funcionamento.” Para ficar num único exemplo, sem uma substância chamada tirosina, ausente nos vegetais, não há comunicação química adequada entre as células do cérebro. “O raciocínio fica mais lento e a agressividade aumenta”, afirma Vânia.

Mas também há argumentos científicos que corroboram a tese crudicista. “É certo que o fogo destrói nutrientes e fibras importantes dos alimentos”, diz Vânia. “Até 40% das proteínas pode subir com a fumaça.” Ao lado disso, segundo um estudo, publicado em 1998 pela revista americana Epidemiology, uma dieta rica em alimentos crus e em frutas pode reduzir o risco do aparecimento de cânceres como o de mama e o de cólon. Outro estudo, publicado no British Medical Journal em 1996, sugere que a ingestão de frutas frescas reduz em 24% as chances de ataque cardíaco.

Seja como for, o crudicismo tem encantado cada vez mais americanos em busca de bem-estar, purificação do corpo, longevidade e de uma vida mais cheia de energia. (Entre as tribos californianas mais alternativas há até a disputa para saber quem come mais “cru”, o que dá status.) Em San Francisco, já existe até restaurante crudicista cinco estrelas. No cardápio do Organica, um dos campeões de pedidos é o Salmão, uma mistura de cenouras, castanhas, cebola e a erva aromática dill. “A nossa clientela está crescendo”, afirma o gerente do Organica, Larry Weinstein, convertido ao crudicismo há quase dez anos. “Estamos recebendo visitantes de outros estados e mesmo de outros países.”

O movimento, engrossado por celebridades como Demi Moore e Robin Williams, pode ser medido também pelo aparecimento de lojas crudicistas. Nas prateleiras, azeitonas gregas coexistem com livros e vídeos sobre saúde, ioga e filosofia naturalista; e sementes aparecem ao lado de pacotes turísticos para qualquer lugar razoavelmente “selvagem”, nos quais se possa tomar muito sol, caminhar pelo mato e relaxar algumas horas em termas naturais. É o caso da loja Nature’s First Law (A Primeira Lei da Natureza), de San Diego, Califórnia, que é, hoje, o mais agitado foco de irradiação do crudicismo. “Embora não existam estatísticas precisas, a dieta crudicista já encanta um segmento ponderável da população”, diz um dos donos da Nature’s First Law, o ex-advogado e ex-vendedor de imóveis californiano Stephen Arlin. “Já somos alguns milhões nos Estados Unidos e muitos milhares na Europa e na Austrália.

Além de vender produtos neo-verdes, Arlin também é co-autor do best-seller homônimo, Nature’s First Law: The Raw-Food Diet (A Primeira Lei da Natureza: A Dieta de Comida Crua), ainda inédito no Brasil. O livro, assinado junto com os dois co-proprietários da loja de San Diego, Foud Dini e David Wolfe, já vendeu mais de 400 000 cópias nos Estados Unidos. “O livro revelou o interesse do público pelo crudicismo e chamou a atenção da grande imprensa para o trabalho que fazemos.” De fato, o assunto tem sido objeto de matérias em jornais como o USA Today, em revistas como a The New York Times Magazine e em canais de televisão como a CNN.

Se o crudicismo é só mais uma moda californiana ou o resgate histórico de uma dieta alimentar com grande poder de prevenir doenças e de aumentar o bem-estar, só o tempo e o avanço das pesquisas dirá. O certo, por ora, é que aquilo que comemos influi – e muito – na preservação (ou não) da nossa saúde. Portanto, vale a pena ficar ligado.

 

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